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A evolução feminina no mercado de trabalho das Engenharias

Segunda, 02/03/2026

Áreas majoritariamente masculinas têm registrado maior presença de mulheres, mudando a realidade das profissões e da sociedade

Por: Lígia Mackey

A preocupação com a equidade de gênero não é algo passageiro e tampouco recente. Cada vez mais, as mulheres têm reivindicado seus espaços de direito no mercado de trabalho e nos cargos de liderança. Enquanto profissional de Engenharia Civil há mais de 30 anos, tenho convivido na prática com essas diferenças. Ciente da importância da representatividade, sou a prova de que a transformação em curso é um divisor de águas. Fui eleita como a primeira mulher a presidir o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP) em 90 anos de história da instituição. Um marco que abre caminho para as novas lideranças femininas ocuparem também esses lugares. Embora existam avanços, há um longo trajeto a percorrer.

De acordo com a nova edição da Síntese de Indicadores Sociais (SIS), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta semana, a disparidade segue acentuada. Ainda que as mulheres tenham maior escolaridade, apenas 49,1% estavam empregadas em 2024, enquanto os homens chegavam a 68,8%. Além disso, a força de trabalho feminina é menos remunerada. Elas receberam, em média, 78,6% do rendimento dos homens. A busca por esse equilíbrio precisa ser reforçada em todas as esferas da sociedade.

Nas Engenharias, Agronomia e Geociências — áreas majoritária e historicamente masculinas —, essa realidade não é diferente, mas tem demonstrado uma mudança significativa nos últimos anos. Dados da pesquisa inédita do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) mostram que nós, mulheres, representamos 20% dos profissionais registrados em todo o Sistema (Confea/Crea). Do montante atual, 36% se registraram há menos de cinco anos. Com destaque para as mulheres mais jovens, com menos de 30 anos, que correspondem a um terço dos registrados. Trata-se de um resultado animador para a área, pois há 40 anos esse percentual era de 4%. Diante das desigualdades que enfrentamos, o salto é gigante e merece ser celebrado.

Tem sido um esforço coletivo para chegar até aqui, porque são profissões que impactam diretamente a vida social como vetores de mudança. As Engenharias possuem papel estratégico e fundamental para a promoção efetiva da equidade de gênero. Parte primordial disso é o Comitê Gestor do Programa Mulher, uma iniciativa para diminuir a distância entre homens e mulheres nas profissões da área tecnológica e dentro do próprio Sistema. Em 2025, mais de 25 mil pessoas foram impactadas pelas ações do grupo, desde meninas nas escolas às mulheres que atuam no dia a dia profissional.

São realizadas palestras e capacitações para prepará-las e fortalecê-las, caso do Encontro do Programa Mulher, que todos os anos tem reunido profissionais em um ambiente de troca, acolhimento e networking. Na edição deste ano, fomos além e lançamos uma cartilha completa, com um panorama das profissões, dados sobre a participação feminina dentro e fora do Sistema Confea/Crea e os resultados concretos alcançados com o trabalho do Comitê.

E foi também neste ano que nos tornamos o primeiro conselho profissional do país e a segunda organização no Brasil a receber o selo bronze de Certificação em Boas Práticas no Combate à Violência Contra as Mulheres — Prática Recomendada (PR) 1.019:2023, concedido pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), em parceria com o Instituto Nós Por Elas. É um reconhecimento ao trabalho de anos em garantir o direito e a segurança das mulheres em qualquer situação.

Com essas iniciativas, é possível criar pontes e chegar mais longe, trazendo as mulheres para mais perto, entendendo seus desafios e construindo soluções que possam abarcar vivências tão distintas. Essa empreitada é um chamado à responsabilidade. Somos todos impactados pela desigualdade de gênero e, quando avançamos, as futuras gerações têm a possibilidade de viver em um mundo mais igualitário, justo e diverso.

Lígia Mackey é engenheira civil com mais de 30 anos de atuação no mercado da construção civil e presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo (Crea-SP).

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